17.9.08

Why not?



No dia em que se discute na Assembleia da República mais um assunto fracturante, resolvo-me a deixar aqui assinalada a minha opinião. E sublinho, a minha opinião. Muitos de vós partilham a mesma ideia que eu, ou até algo parecido, e outros de vós terão mesmo a opinião oposta. Mas para isso é que existem debates, tertúlias, ou até mesmo aqueles lanchinhos saborosos no tasco onde trabalho. E tenho a felicidade de ter um bom amigo que se delicia em trazer para a mesa estes assuntos que tanto nos dividem e ao mesmo tempo nos aproximam: é que temos sempre opiniões contrárias!

Talvez pensem que sou demasiado anarquista ou que as minhas opiniões são as que são por certas costelas que possuo. Em relação à segunda, tenho a dizer-vos que a minha opinião é totalmente independente das minhas experiências de vida. Quanto à primeira, que sou uma filha de Abril e, portanto, defensora acérrima da liberdade, nunca esquecendo que “A nossa liberdade acaba quando a dos outros começa.” E é sobretudo aqui que alicerço os meus argumentos.

O que é um homossexual? Está-lhe nos genes? Nasceu da educação que teve? São perguntas que já me questionei, mas não perdi tempo nenhum em busca de respostas científicas. Preguiça? Talvez. Mas também porque não me interessa nada esse porquê. A dada altura da vida, um ser humano sentiu que o desejo de compartilhar sentimentos e desejos sexuais estariam na forma de um ser do mesmo sexo que o dele. Há quem diga que há certos genes que provocam essa vontade. Também acredito que às vezes se devam a percursos de uma vida. Posto isto, concordaria plenamente com a frase “Casamento é o contracto celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família mediante a plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código” desde que lhe tirassem o c do contracto (e com isto aproveito para alertar os senhores jornalistas do Público online, e outros a quem a carapuça também assente, que eles são a janela aberta para alfabetização em massa do povo português!). Não falamos de casamento religioso, pois não é disso que se trata. Neste contrato não é visto o casamento como uma “união para a procriação”, mas sim uma “união para a partilha”: partilha de sentimentos, de bens, de vidas, de obrigações perante o outro e o estado. Porquê então o excerto do Código Civil “entre duas pessoas de sexo diferente”? Não encontro uma razão. Para os mais ortodoxos que defendem que é anti-natural, então eu exijo-lhes que defendam, e o façam, o casamento somente como um acto de procriação. É que tudo o resto é possível.

“Já nem os heterossexuais se casam, juntam-se (uniões de facto).” – comenta um leitor. E eu respondo – “Mas podem.” Sou grande defensora da união de facto. A vida ainda não me mostrou grandes vantagens naquele papel passado. Mas se alguém as vê, porque não há-de fazê-lo? Porque hão-de existir sempre daqueles vizinhos que entram pelo nosso quintal adentro para remexer a nossa horta?

Aceito que haja pessoas a quem a homossexualidade ainda faz muita confusão. São frutos de uma sociedade, educação e/ou religião onde isso ainda é renegado. E digo ainda pois estou confiante que a sociedade moderna corre no sentido de naturalizar o que ainda é, para muitos de nós, anti-natura. A única coisa que espero destas pessoas é que aprendam a viver com as diferenças: dos outros e também delas próprias.

(foto de Marco Carocari em Gallery of Nudes)

4 comentários:

Anónimo disse...

Posto isto, só me resta dizer... Concordo!

BlueCat disse...

Contra-natura é, e sempre será (mesmo que não metamos a religião aqui, basta ver que só há procriação com a intervenção de um homem e uma mulher). Não sou contra que homossexuais se juntem, vivam a sua vidinha, mas não acho de todo correcto a oficialização do seu acto – chamem-me retrógrada se quiserem.
Mas, voltando para a outra face da moeda, acho igualmente contra-natura casais de heterossexuais, com a relação oficializada, e que todos os dias se agridem mutuamente.
Já agora, que estamos com um governo de maioria absoluta, porque não oficializar tudo o que até agora é não é permitido?

6to100tido disse...

sabesquemsou!,

eu tb ;)

6to100tido disse...

bluecat,

Vais de encontro ao que digo quando digo que compreendo quem vê o casamento como um acto de procriação. Em relação ao contra-natura, isso dava mais uns posts e umas horas a ver National Geographic: é que estamos a falar de um assunto que existe há muito tempo, entre os humanos e entre os seres irracionais, mas que simplesmente era abafado.

E não podia estar mais de acordo em relação à violência doméstica...

Quanto ao contrato, e vendo este assunto como um contrato celebrado a três, o casal e o estado, que é disso que estamos a falar, não entendo como o estado não possa aceitar a oficialização de relações emocionais e de comunhão entre pessoas, independentemente dos seus credos. Em nada isto será prejudicial ao conjunto de regras que a sociedade (estadual) segue.

Quanto à anarquia total que sugeres (ironicamente), acho que tudo deve ser posto na mesa e discutido. Há assuntos mais fracturantes que outros, há coisas que podem ser melhoradas (outras não, pois entrariam em colisão com regras ou actos que terão sempre de existir, para que haja coesão na sociedade), mas terão sempre de ser discutidos todos os pós e os contras. E apesar de compreender as vantagens de uma maioria absoluta (a estabilidade de um estado), também lhe reconheço muitas desvantagens.

Bom, mas isto é somente a minha opinião, de onde lhe reconheço muitas falhas (na minha opinião, é claro!).

Gostei do teu coment. É que se todos caminhássemos na mesma direcção isto não tinha piadinha nenhuma ;) E como já referi no post: são estas conversas que tanto nos dividem e ao mesmo tempo nos aproximam.

Até já, amiga ;)